O que é, o que é – por Andrea Alves

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O que é o que é?

Vive de cultura, gera emprego, paga impostos, produz felicidade, beleza e recursos para o país, para o Estado e para a cidade do Rio de Janeiro. Esse é o produtor cultural, responsável por gerar uma das maiores riquezas do mundo: o capital criativo. Quem é essa gente que faz tanto com tão pouco?

Somos artistas, escritores, diretores, atores, músicos, poetas… Somos muitos. Quantos somos? Temos apenas uma vaga ideia. Nosso combustível não polui, é de alta qualidade, nossa fábrica de sonhos é de primeira necessidade. Somos homens, mulheres, negros, brancos, índios, misturados. Temos todas as idades. Estamos em uma das cidades mais lindas do mundo, produzimos uma riqueza reconhecida em todo o mundo como o capital do futuro.

Somos mágicos, poetas, inventamos mundos, pessoas, histórias. Nosso desafio agora é: como continuar a sonhar? Sonhando?

Somos empresários, trabalhadores, técnicos, estudantes… Somos do ofício da cultura, investidores com olhar que projeta o futuro. No presente, lidamos com gestores arrogantes, ambiciosos equivocados, de inteligência curta, irresponsáveis e comprometidos com o seu umbigo.

Hoje ainda somos aprendizes no exercício cidadão de fazer política, de criar organizações que façam interface com os poderes representantes da democracia. Nosso Fundo Nacional de Cultura está sem fundos, nosso Fomento municipal deu cheque sem fundos, nosso Estado está no fundo do poço.

O poder executivo arrogante, abusivo, corrupto, usou dos piores instrumentos para que o público, o povo brasileiro, atirasse lama no seu próprio espelho: na sua arte. Seus heróis viraram vagabundos, desocupados, aproveitadores, usurpadores do dinheiro público. Viramos alvo. Falamos contra nós mesmos. Ingenuamente falamos contra o único mecanismo de fomento que mantém hoje a cultura no país: a Lei Rouanet. Culpamos as empresas, mas foi oferecido a eles um mecanismo de parceria, onde eles podiam fazer o (hoje politicamente incorreto) marketing cultural. Culpamos os produtores, que ganharam um certificado de gestor público sem saber e sem ter formação para isso. O mal-feito federal reverbera, então gera incertezas na lei de incentivo municipal carioca.

Fazemos teatro, cinema, música, circo, dança, ópera… Fazemos para quem? Quem nos vê, quem ouve, quem entende, quem se identifica? Buscar nossos parceiros de volta, conquistar novos, falar algo que mobilize, que faça alguém ter vontade de sair de casa, de escrever, de dizer “me tocou”! Talvez seja o nosso maior desafio e a maior conquista. Dominar os novos canais de comunicação, entender a crise, saber do potencial e de quem está disposto a pagar seu ingresso. Equilibrar as contas de uma produção.
Somos advogados, jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas, locutores, somos fazedores, inventores, especialistas em generalidades. E somos resistentes! Vamos ao legislativo, vamos reinventar a nós mesmos e ao nosso público. A responsabilidade é de todos. A tarefa é para muitos heróis. Eles existem, estão por aí alguns trabalhando por todos silenciosamente, mantendo vivo o que resta. A tarefa é para muitas gerações. Mas é urgente.

Quem vive de cultura, quem movimenta a nossa cadeia produtiva, quem? Identifiquem-se, escolham seus pares e mãos à obra.

Andrea Alves é produtora cultural, sócia da Sarau Agência de Cultura Brasileira e integrante do colegiado da APTR

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